Grupo Ossanha - Teatro Documentário

Rádio Mr. John Waters

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

O caso da Galinha Moucha

por Marcelo Costa
Grupo Ossanha
Gênero: Humor negro – ou tempestade em copo d’água – Estilo dolorido, sofrido, patético.

"Há três noites que eu não durmo,oh lá lá.
Pois perdi o meu galinho, oh lá lá.
Pobrezinho oh lá lá.
Coitadinho, oh lá lá .
Eu perdi lá no sertão".


...Da janela do meu quarto ouvi o lamento da galinha Moucha. Seu cacarejo suplicava por ajuda. A ajuda era precisa e urgente. Sua vida de galinha estava por um fio.
- Misericórdia, moço – da janela do meu quarto ouvi.
Apenas. Ouvi.
Poderia eu descer as escadas, atravessar a rua, pedir, dois pontos e travessão.
Trégua.
Seria tarde. Tarde demais. Correr seria uma dificuldade extraordinária, mas aquilo que paralisava eram os escrúpulos da má vontade, que manifestavam por uma insaciabilidade. Senti meu coração bater de terror e desejo enigmático.
Seja como for, seja rápido. Tenha piedade.
Pobre da galinha Moucha. Seus filhos órfãos, e o pai a olhar preso no viveiro junto aos gansos. Seguram o ar em estado de tensão. Juntos. Nem um pio!
A galinha debatia-se sobre a mesa velha da casa, sua força é vã. Suas penas desvairadas abriam em leque. Com os rodopios da galinha Moucha, o galo quis cantar de galo e levou um tabefe da velha que esperava. Abaixou a crista.
Misericórdia, moço!
O que pode ela contra o homem?
Contra a Mão sem dó?
Seus olhos de galinha giram em devaneio, parada do fluxo de ar. Uma pausa para a reza.
Seja como for, seja rápido. Tenha piedade! Tadinha, moço!
Peça para o menino entrar, a galinha pode demorar em seu martírio. O dó dos olhos estraga. Dá nó. Disse aquela boca que equilibrava o pito com tamanha maestria.
A galinha pisca os olhos, seu bico de galinha prensado sobre a mesa velha. Não olha!
Ela desistiu de cacarejar. Juntou as asinhas junto ao peito cheio, abraçou-se para não se sentir só.
Fez força tensão. Pausa. Suada. Coraçãozinho acelerado.
Seus pés de galinha lembraram-se do terreiro, ciscou sobre a mesa.
- Destino miserável, abandono de vida, ao tempo entrega a sua vida. Mole, patife, canalha que captura o destino dos outros, sem dó.
SEJA RÁPIDO, SEJA COMO FOR, ANDA! Que não espere o pôr do sol, não quero ver chegarem as estrelas.
Vai. Vai. VAI! Abandono este mundo merdinha, mundo moderno, morticínio, maléfico mundo. Mofino. Malogro. Metralhas. Morfético. Matadouro. Matuto. Miserável. Mediocre. Maldade maior. Mentiroso. Mormaço. MÃO em câmera lenta cria coragem. Gritei.
Criou. Coragem. Subiu como uma guilhotina. Não estudou rotas. Tensão de ambas as partes.
O homem de barba mal feita, de suor mau cheiroso pregueando em camisa de semana, de cabelos desgrenhados encardidos, de cara chupada e de olhos gozosos (os olhos da galinha padeciam).
Que rufem os tambores.
Mirou, obteve consciência de acertar o seu destino, objetivo que era claro. De repente, ao mesmo tempo surpreendente e natural, o seu destino estava em frente aos seus olhos.
Suada a mão chega ao ponto máximo.
Gira o fio da vida. Vida ligeira. Grito no silêncio. Much. Não posso mais parar. Solta a corda, baila pelo ar. O balé da mão assassina encontra pouso. Corta.
Rápido e sem susto. Sem barulho e sem caos. Morte limpa, como um tiro bem dado. Fura apenas ali. Preciso e limpo.
Sem mais tensão.
O suor escorre no rosto magro, uma gota do suor vai encontrar abrigo ao olho direito da galinha Moucha.
Na mesa adormece o pequeno e moribundo corpo, a mão ossuda e tremida vai enxugar o suor que escorre da testa. O prato esmaltado e encardido já corado de caldo da vida.
O galo canta. O sol se põe. As estrelas reaparecem. A canja já cheira daqui. Bucho cheio. Satisfeito. Fecho minha janela...


Marcelo Costa





Sr. Costa

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Belo Horizonte, MG, Brazil
Marcelo de Paüla Costa, formado em Artes Cênicas com habilitação em direção teatral pela Universidade Federal de Ouro Preto e possui experiência no cinema crítico pela Universidade Federal de Santa Catarina. É ator, diretor e crítico de cinema.