
de Marcelo Costa
Êh malandro, vai. Vai, malandro, arregaça minha janela, invade os meus cômodos. Vai,
malandro. Revira a minha geladeira, vasculha minhas gavetas. Rouba os meus livros,
minha história. Vai. Me livre dessa agonia, malandro. Caga na minha cozinha. Vai, vai.
Fuma do meu cigarro, bebe da minha bebida, malandro. Abusa da minha mulher. Vai, e
manche minhas paredes, alimente-se das minhas lembranças. Alimente-se daquilo que
você não tem. Me tranca no banheiro, malandro. Quebre a minha louça. Rasgue as
cortinas. Vai, vai, malandro. Me invade por dentro. Por inteiro. Vai. Pule o muro,
malandro, cuidado com o carro, o cachorro, malandro! Vai.
Admita que não consegue viver sem mim. Roube mais, roube, amanhã eu faço o BO e
finjo que está tudo bem. Eu tenho memória curta. Me machuque, ria da minha expressão
de assustado, do meu coração acelerado, do meu choro engasgado. Êh malandro...
...volte quando quiser, eu estarei aqui esperando. Vou fazer até um café. Vai, vai, volte
para sua família, se a tem. Me livre dessa agonia. Vai, malandro, pois sua vida está em
constante perigo. Se esconde, corre, e admita que é você o maior dos antropófagos. Vai,
vai, corre, arme voo, malandro, vigia a cidade Sua. “A realidade é um balde de água
fria.” Não olhe para trás. Vai. Vai. Porque ninguém viu nada, na noite todos os gatos
são pardos. Eles estão dormindo. Ninguém viu. Ninguém vê.
"Alguém viu alguma coisa? Alguém viu alguma coisa? Não, ninguém viu nada. Se
viram, é melhor fingirem que não. Ninguém vê. Não dá pra viver vendo tudo. Quem vê
demais, morre. Quem é cego demais, morre. Quem vê, faz que não vê. E a vida segue.
Cegue a vida. Não é conselho; é narrativa. Cegue a vida que ela não pára. Surra,
machadada, tiro, facada, violência doméstica, prostituição infantil, trabalho escravo, pai
comendo filho, irmão violentando irmã, pedofilia, estupro, aborto, roubo, assassinato,
sequestro, corrupção, miséria, fome; essa merda acontece todo dia. Não é roleta russa,
não. O nosso país é feito disso. Quem não tem cerca elétrica no muro sabe bem do que
falo. Quem não tem carro blindado, sabe o que é tiro na testa. Está aqui, do meu lado;
no vizinho; o tempo todo. É só fechar os olhos um pouco e seguir em frente. Fingir que
não viu. É o que não deve ser visto." A vida fica mais fácil. Bem mais fácil. Bem mais
fácil. Nosso país está assim porque a gente faz isso dele. A gente tem aquilo que a gente
merece. Não é maravilhoso?
Voz: Marcelo Costa você está preso por calúnia e difamação. O prédio está cercado.
Entregue-se e solte os seus reféns. Saia com as mãos na cabeça.
Marcelo Costa: Qual é o meu lugar? Qual é o meu lugar? Me explique, me aconselhe.
Qual é o meu lugar? O meu grito rito vai reverberar até as estrelas, o meu grito rito vai
reverberar até o além dos aléns. Marginal ganha é no berro! Vão, vão embora, voltem
para os seus cobertores quentes, para a sua cama limpa, para sua casa arejada. Vão
embora, vão embora!
***
