Grupo Ossanha - Teatro Documentário

Rádio Mr. John Waters

sábado, 18 de abril de 2009

"O homem com uma câmera" Dziga Vertov 1929


Marcelo Costa disse...

De imediato uma advertência: trata-se da busca de uma arte pura, distanciada do ranço da arte de representar do teatro e da escrita da literatura. É lançando o manifesto logo nos créditos do filme “O homem com uma câmera” de Dziga Vertov. Suas idéias chegam sem pedir licença, sem bater na pele, rasgam as formas e reivindicam lugares. Para podermos melhor compreender as inquietações de Dziga Vertov e sua maneira de pensar cinema vamos permear o envolvimento dele com o cinema verdade – busca incansável pela verdade do cinema – é talvez uma tentativa de mostrar planos e situações que o olho humano não possa perceber, tal qual vemos em uma seqüência do filme o atravessar de uma locomotiva sobre os trilhos. Fantástico!
Já a proposta de não utilizar atores nos leva a pensar sobre. A presença de uma câmera faz com que modifiquemos nossa maneira de portar, ou seja, qualquer pessoa enquadrada por uma câmera quer queira ou não pode ser considerada um “ator”. Nós estamos sempre representando para a câmera, mas por outro lado, penso na época (URSS 1929) e cogito a possibilidade das pessoas registradas pelo olho da câmera de Vertov, se querem imaginavam do que se tratava aquele acontecimento.
Com o “correr” do filme: susto! Ritmo extracotidiano, contraste entre cenas, movimentos de engrenagem, formas circulares, mecanismos, multidões, justaposições de cenas, improvisos, aproximação das idéias futuristas, tecnologia, construtivismo e música. Pensei:
- Revolucionário e de beleza singular.
“O artista nos permite olhar para o mundo mediante aos seus olhos. Que ele possua tais olhos a desvelar-lhe o essencial das coisas, independentemente de suas relações, eis aí precisamente o dom do gênio, o que lhe é inato”. (Schopenhauer)
O filme apresenta uma mescla de olhares, a câmera é um grande olho que enxerga tudo. Além de mostrar cenas corriqueiras do dia a dia, no qual aproxima estilo documentário, Vertov desmistifica a sétima arte abrindo o processo de filmagem e construção – acredito que ele fará isso em todas as obras de sua autoria. É um filme dentro de um filme (metalingüístico) e também um acontecimento dentro de outro acontecimento. Percorremos os bastidores, vemos o homem filmando arriscando-se em torres para alcançar o melhor ângulo e uma mulher em processo de colagem que corta e emendam as películas, tudo é mostrado. Nada escapa ao olho que tudo vê.
Acredito que o básico no cinema é movimento e ritmo, vejo que Vertov possui uma percepção apurada e cuidadosa para com eles. Assistir “O homem com uma câmera” é como ouvíssemos uma sinfonia ou lermos um poema onde temos imagens sobrepostas em um ritmo. O filme não tem a pretensão de contar uma estória ao espectador, mesmo porque essa não seria a verdade do cinema segundo Vertov.
Dziga Vertov rege em seu filme movimentos rápidos e lentos, modificando nossa percepção para com que é mostrado. A música acompanha tudo, ela comunga é una as imagens e não há com desassociar uma da outra.
Notamos que a música possui aspecto tanto clássico com experimental, sons gravados tais como a sintonia de um rádio, ruído de um portão, som da caixinha de música, choro de criança, sirene, melodias feita a partir de instrumentos alternativos (barras de ferro, sons de latas), instrumentos convencionais, vozes e sons de fábrica. Analisando algumas frases da música notamos um contemplamento pela máquina, todos os ruídos tem um sentido e são ritmados como um trabalho em série. Penso que às vezes a música do filme de Vertov é uma espécie de respiração, possuindo aspectos de calma e tenção. Lembra poesia mas, lembra música mas, lembra respiração mas...
1. Schopenhauer, O mundo como vontade e como representação.

Sr. Costa

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Belo Horizonte, MG, Brazil
Marcelo de Paüla Costa, formado em Artes Cênicas com habilitação em direção teatral pela Universidade Federal de Ouro Preto e possui experiência no cinema crítico pela Universidade Federal de Santa Catarina. É ator, diretor e crítico de cinema.