É medo da fome, medo de miséria. Medo delas que chegam roendo pelas extremidades, como doença, a "ponto de botar a cabeça sob água fria da torneira para abrandar o estado febril". As coisas que não podem ser ditas chegam sem querer, reivindicam um lugar. Será preciso abrir os olhos, retirar a micro pele da retina que o impede de ver. Não dá para fingir que não viu o que não deve ser visto.
Assim vejo o filme de Leon Hirszman “Maioria Absoluta”, um itimado para agirmos. Um retrato acalentador do povo oprimido brasileiro suplicando atenção pública.
Podemos dizer que Hirszman faz da palavra e da imagem as suas armas. O documentário é realizado em 63 e concluído ao final do golpe de 64, sendo censurado até 1980. Isso não nos faz perguntar que poder é esse que possui a arte? Uma censura de quase dezesseis anos. O que a política temia?
No entanto, os problemas sociais da época retratados no filme de Hirszman continuam atualíssimos. Mostrando que o retrato continua o mesmo, morre um e nasce outro para ocupar o lugar. O Brasil é assim, quilombo passa chamar favela, escravo apelidado de camponês. E segue a vida porque ela não para, não é conselho, não é narrativa.
Esse documentário de modelo sociológico apresenta influência do estilo do cinema-direto, isso é a câmera torna-se espiã da vida, sem intervenções. Também não vamos generalizar, pois o simples fato de possuir a câmera já se trata de uma intervenção. O que quero frisar são os aspectos das entrevistas com o som captado diretamente junto a imagem e a narração off.
A voz da narração off, que pertence ao universo extradiegético do filme, orienta o espectador para o que é conveniente, ele o ajuda na formulação de uma reflexão crítica e um parecer imediato do espectador. O narrador fornece dados, números, frases de impacto, tudo com um único objetivo: fazê-lo um espectador ativo, participativo e consciente da problemática que o cerca. Jean-Claude Bernardet pesquisador e crítico de cinema diz que o narrador “é uma voz do saber”.
Já o som capturado diretamente é graças ao moderníssimo (hoje nem lembrado) gravador Nagra1. Capturar a voz dos entrevistados no ato da gravação era o que de mais moderno havia no cinema brasileiro. Imagem e voz andando juntas, irmãs que comungam para um único fim, o filme. Outro já havia tentado o sucesso de “Maioria Absoluta”, no entanto sem resultado, é o caso do documentário “Garrincha: Alegria de um povo”. Para o documentário de Hirszman o ouvir a voz do povo camponês é essencial para a finalidade do filme. O filme dá a voz ao povo oprimido.
No início de “Maioria Absoluta” notamos planos onde há crianças sendo alfabetizadas no método de Paulo Freire dentro da campanha de João Goulart. A voz off de Ferreira Gullar nos diz que trata-se de um filme sobre o analfabetismo, cujo o objetivo seria investigar as causas deste mal. As investigações partem de entrevistas de pessoas que possuem diferentes status sociais. A classe média e eles, a maioria absoluta, os analfabetos.
As cartas foram postas à mesa. Citarei a bela frase dita pela voz aveludada do filme que diz, “as doenças, como os males sociais têm causas, e é por desconhecê-las que se buscam remédios milagrosos”.
Podemos dizer que todo filme é um discurso, e que Leon Hirszman faz de “Maioria Absoluta” um discurso que é comprovado pelas entrevistas. No texto crítico, do pesquisador Bernardet: “O modelo sociológico: Maioria Absoluta” nota-se um alerta a classe média para a situação camponesa, além da defesa ao direito ao voto e a campanha de alfabetização de João Goulart.
Há cenas que me chamam atenção tais como: o interior de uma casa de pau-a-pique, onde a câmera desliza pelos cômodos e a narração nos diz, “aqui mora o analfabetismo”, ali em casa sem moveis e sem luz que ele se refugia a fazer companhia para crianças, pais e toda uma geração. Há filmagens que mostram crianças envolvidas em trabalho duro da lavoura ao invés de estar em sala de aula estudando para esperança de vida melhor.
Seria devaneio dizer que a maioria não tem potência de atitude? "Bois trabalhadores que trotam em círculos para movimentar a moenda"². Girando a engrenagem do poder, a classe que sequer sabia de sua existência ou fingiu que não viu e que não deve ser visto.
De repente um pedido de atenção, que causa a tensão, ouve-se o silêncio incômodo e seco. Longe e devagar o silêncio é ocupado por um solfejo carregado de tristeza e desrealização, marcas de um Brasil cada vez mais padrasto e de filhos cada vez mais sozinhos.
1 A informação sobre o gravador Nagra foi retirei do livro, Enciclopédia do Cinema Brasileiro.
²Moacir Prudêncio
²Moacir Prudêncio
